
Tenho visto, com bastante frequência, uma explosão de cursos, palestras e livros sobre Inteligência Artificial voltados ao Direito. O tema está em todos os lugares e vem sendo abordado, em programas direcionados a advogados, magistrados e outros operadores jurídicos.
Confesso que, em um primeiro momento, isso me preocupou.
Quando se vive o dia a dia do livro jurídico, acompanhando autores, obras, revisões e a construção do conhecimento técnico, é quase inevitável se perguntar: qual será o espaço da doutrina em um cenário cada vez mais tecnológico?
O livro jurídico corre o risco de se tornar secundário?
Essas inquietações me acompanharam até que resolvi fazer algo simples, mas decisivo: ler com atenção os cronogramas desses cursos.
E foi ali que a reflexão mudou de tom.
O que aparece, de forma bastante clara, é que a Inteligência Artificial não surge como substituta do estudo jurídico. Ela aparece como ferramenta de apoio. Fala-se em produtividade, organização de ideias, otimização do tempo, auxílio na elaboração de textos iniciais e leitura preliminar de jurisprudência.
Em nenhum momento a IA ocupa o espaço da doutrina, da interpretação qualificada ou da construção técnica das teses jurídicas.
Isso faz toda a diferença.
Ferramentas de Inteligência Artificial organizam informações, sugerem caminhos e aceleram processos. Mas elas não acessam livros protegidos por direitos autorais, não escolhem correntes doutrinárias, não constroem argumentos com profundidade e, principalmente, não assumem responsabilidade intelectual.
No Direito, fundamentar não é apenas responder.
Fundamentar é escolher, justificar, sustentar e assumir.
E isso continua sendo tarefa humana.
Essa constatação trouxe tranquilidade.
A Inteligência Artificial não diminui o valor do livro jurídico. Pelo contrário: ela escancara a diferença entre conteúdo genérico e conhecimento confiável.
Quanto mais rápidas se tornam as respostas, maior é a necessidade de:
- profundidade argumentativa;
- critério técnico;
- validação segura;
- responsabilidade profissional.
Nada disso nasce de um prompt bem escrito.
Nasce do estudo, da leitura atenta, da pesquisa séria e da doutrina bem construída.
Como editora, essa reflexão reforçou uma convicção que sempre me acompanhou: o livro jurídico não é apenas um meio de informação. Ele é fundamento intelectual, segurança técnica e compromisso com o Direito.
A Inteligência Artificial veio para ficar, e pode ser uma grande aliada do profissional jurídico. Mas o pensamento jurídico sério continua exigindo método, leitura, reflexão e autoria.
A tecnologia ajuda a pensar mais rápido.
A doutrina continua sendo o que nos faz pensar certo.
Seguimos firmes há 23 anos, certos de que o conhecimento é poder, o livro é essencial para a vida e o futuro do Direito continua sendo escrito com estudo, reflexão e coragem. Que venham muitos anos.
Por Juliana Mizuno
Diretora da Editora Mizuno há 23 anos, com atuação direta na coordenação editorial e na formação de obras jurídicas voltadas a profissionais do Direito.
Tem experiência na produção, curadoria e difusão de conteúdo jurídico em meios editoriais e digitais, com foco em clareza, aplicabilidade e responsabilidade técnica.
Sugestão de Leitura:

Dos Algoritmos à Inteligência Artificial
Emerson Wendt e Germano Schwartz
O livro oferece base técnica e prática para O livro O livro Dos Algoritmos à Inteligência Artificial, analisa o Direito na era da IA, normas algorítmicas, decisões judiciais e riscos éticos da sociedade digital
